O empreendedorismo negro é uma das forças mais expressivas da economia brasileira. Pessoas pretas e pardas representam 55,5% da população brasileira, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e essa presença se reflete diretamente no mundo dos negócios.
São 15,8 milhões de pessoas negras à frente de negócios no país, o equivalente a 52,3% do total de empreendedores brasileiros. Nos últimos dez anos, esse número cresceu 17%. Entre pessoas empreendedoras brancas, o crescimento no mesmo período foi de
A população negra brasileira também movimenta cerca de R$ 1,7 trilhão em renda própria por ano. O dado, estimado pelo Instituto Locomotiva a partir da PNAD, ajuda a dimensionar uma força econômica que atua em diferentes setores, gera renda, cria empregos e faz recursos circularem em todo o país.
Essa presença, no entanto, ainda não se traduz em igualdade de condições. Além disso, muitos desses negócios são construídos com menos capital inicial, crédito mais restrito e redes de apoio mais frágeis do que as encontradas por outros grupos.
Quando falamos de empreendedorismo negro, não estamos falando de um nicho da economia, mas de uma força econômica expressiva, que desenvolve soluções e transforma realidades. Por isso, o desafio é fazer com que esse potencial encontre condições para crescer na mesma proporção de sua capacidade de gerar impacto.
“O empreendedorismo negro não é apenas uma pauta de diversidade. É uma pauta de desenvolvimento econômico.”
Josy Santos, diretora executiva do Instituto Cória
Quem são as pessoas empreendedoras negras no Brasil hoje?
Abrir um negócio no Brasil envolve burocracia, acesso restrito a crédito, mercado competitivo e uma margem de erro pequena para quem começa com pouco capital.
Mas, para pessoas negras, as condições de partida são diferentes. A chegada ao empreendedorismo, para muitas delas, acontece antes mesmo da formação de uma rede de apoio, do acúmulo de capital ou do acesso às estruturas que outros grupos já encontram prontas.
Ainda assim, 77% das pessoas empreendedoras negras em estágio inicial afirmam que abriram seus negócios para “fazer a diferença no mundo” e “ganhar a vida porque os empregos são escassos”, segundo o relatório Empreendedorismo no Brasil: Raça e Cor, produzido pelo Sebrae em parceria com a ANEGEP. Em contraste, entre pessoas empreendedoras brancas, esse índice é de 68%.
Esse encontro entre propósito, experiência e necessidade aparece na trajetória de Kessya Carati, fundadora da Vínculo Impacta. Depois de construir uma carreira no terceiro setor, em projetos de responsabilidade social e transformação territorial, ela criou uma startup voltada à estruturação de organizações sociais e à aproximação dessas iniciativas com empresas comprometidas com impacto.
A Vínculo foi amadurecida durante cerca de três anos. Foi a participação no Amplitude Perifa, programa executado pelo Instituto Cória para acelerar negócios de impacto das periferias do Rio Grande do Sul, que marcou o momento em que Kessya decidiu apresentar a empresa ao mercado
“Oportunidades como essa fazem com que o empreendedor consiga vestir a roupa de empreendedor e dizer assim: ‘Finalmente posso ser e posso colocar a minha ideia.’ Minha ideia não fica só nesse campo do pensamento. Ela consegue vir para a concretude finalmente.”
– Kessya Carati, fundadora da Vínculo Impacta
Renda, formalização e acesso ao crédito
O rendimento real médio habitual das pessoas empreendedoras negras é de R$ 2.601. Apesar de ter crescido 23% nos últimos dez anos, ele ainda permanece muito abaixo do registrado entre pessoas brancas à frente de negócios.
A concentração setorial é outro indicador de vulnerabilidade. Segundo o Sebrae, 42,4% das pessoas empreendedoras negras atuam no setor de serviços, segmento frequentemente marcado pela informalidade, pelas menores barreiras de entrada e por margens de lucro mais reduzidas. Como resultado, com pouco espaço para planejamento, sobra menos ainda para investir em expansão.
Apenas 25,1% dessas pessoas possuem CNPJ. Sem registro formal, diminuem as possibilidades de acessar linhas de crédito institucionais, licitações públicas, contratos com grandes empresas e determinados programas de desenvolvimento.
Somente 30,5% contribuem para a Previdência Social. Isso significa que a maioria ainda opera sem uma rede de proteção diante de situações como problemas de saúde, acidentes ou aposentadoria.
As barreiras de formalização se somam às dificuldades de acesso ao crédito. Apenas 26% das pessoas empreendedoras negras já conseguiram acessar algum tipo de financiamento. Assim, a falta de garantias, os juros e os critérios usados pelas instituições financeiras continuam limitando o desenvolvimento de negócios com capacidade real de crescimento.
Enquanto muitas pessoas empreendem por oportunidade, muitas pessoas negras precisam criar a própria oportunidade. Quando olhamos para esses negócios, encontramos talento, criatividade e inovação, mas também uma ausência histórica de acesso a crédito, redes, informação e mercados.
É justamente aí que políticas públicas, organizações de impacto e ecossistemas de inovação precisam atuar.
Entre empreendedoras negras, a desigualdade é dobrada
Quando adicionamos a variável de gênero, as desigualdades ganham novas camadas. Consequentemente, mulheres negras enfrentam barreiras que impactam diretamente sua renda, sua permanência nos negócios e seu acesso às oportunidades.
Não basta ampliar o empreendedorismo feminino. É necessário garantir que esse desenvolvimento também seja racialmente inclusivo. Mulheres negras donas de negócios possuem rendimento médio 59% inferior ao de homens brancos e 46% abaixo do registrado por empreendedoras brancas.
A renda média dos homens brancos empreendedores chega a R$ 5.143. Em comparação, mulheres brancas à frente de negócios recebem R$ 3.874; homens negros, R$ 2.868; e mulheres negras, R$ 2.090, o menor valor entre os quatro grupos analisados.
Disparidade de renda entre grupos empreendedores
Os dados também mostram que a desigualdade de renda não acompanha o nível de escolaridade. Em 2025, 24,8% das mulheres negras empreendedoras possuíam Ensino Superior, percentual superior ao registrado entre homens negros à frente de negócios. Mesmo assim, a formação não se reflete de maneira proporcional em seus rendimentos.
Além disso, mulheres negras encontram menos acesso a redes qualificadas, programas de aceleração e espaços de decisão do ecossistema empreendedor. Essa ausência interfere na chegada a novos clientes, investidores, parceiros e mercados.
Foi o que Bia Araújo percebeu ao desenvolver a Escola Quebrada Food, negócio criado a partir da experiência adquirida à frente da Vagão Dog e Fritas, em Guaianases, na zona leste de São Paulo.
Bia começou a empreender ainda na infância, incentivada pela mãe a vender pequenos produtos e conquistar o próprio dinheiro. Anos depois, transformou o conhecimento construído em seu negócio gastronômico em uma metodologia acessível para apoiar outras pessoas que empreendem no setor de alimentação.
A Escola Quebrada Food participou do VAI TEC, programa executado pelo Instituto Cória e voltado ao desenvolvimento de negócios inovadores das periferias de São Paulo. A empresa já havia passado por outras experiências de aceleração, mas ainda buscava consolidar o produto e avançar nas vendas para outras empresas.
“O VAI TEC para a gente foi muito importante, principalmente com relação a posicionamento e reconhecimento da nossa força enquanto negócio. De olhar para o negócio e falar: ‘Não, eu tenho um negócio pronto, sim, e ele já pode ser comercializado e pode acontecer de uma forma extremamente potente.’”
– Bia Araujo, fundadora da Escola Quebrada Food
Por isso, a experiência mostra por que redes e validação importam tanto quanto a capacitação. O produto já existia e a negociação comercial acontecia havia mais de um ano. Mas a presença no programa ajudou a ampliar o reconhecimento da empresa e sua entrada em espaços aos quais dificilmente chegaria sozinha.
“No Instituto Cória, entendemos que capacitação, sozinha, não resolve as desigualdades. Por isso, desenhamos programas que conectam desenvolvimento de competências, fortalecimento de redes, acesso a especialistas, mercado e, quando possível, mecanismos de investimento. O desafio nunca foi apenas ensinar empreendedorismo. É garantir que essas pessoas consigam permanecer e prosperar no ecossistema.”
– Josy Santos, diretora executiva do Instituto Cória
Quando o apoio entra em jogo
Um negócio que permanece informal encontra dificuldades para acessar mercados maiores. Quando uma pessoa fecha sua empresa por falta de suporte, o território também perde capacidade de gerar trabalho, movimentar renda e criar soluções a partir de conhecimentos que dificilmente seriam encontrados fora daquela realidade.
Esse é o custo quando o ecossistema empreendedor não chega onde precisa chegar.
Pessoas negras entram no empreendedorismo em condições estruturalmente diferentes das de outros grupos e, mesmo assim, chegam frequentemente com a intenção de construir para além do lucro individual. Nesse sentido, o que faz diferença é a existência de suporte para que esses negócios consigam se desenvolver de forma sustentável.
Para Kessya, esse suporte significou ter tempo para se dedicar à Vínculo Impacta enquanto ainda conciliava o negócio com outros trabalhos.
“Se a galera acha que é glamour, ‘sou CEO, linda, poderosa e maravilhosa’, não achem. O corre é enorme. O Amplitude me deu esse momento de respiro para poder sentar e pensar: vamos estruturar essa empresa para que ela consiga seguir.”
– Kessya Carati
Durante o Amplitude Perifa, Kessya conseguiu avançar na estruturação da plataforma da Vínculo, ampliar seus contatos e transformar uma empresa que ainda estava sendo gestada em um negócio apresentado ao mercado.
Para Bianca, o acesso a conhecimento e redes também fortaleceu a autonomia para tomar decisões sobre o futuro da empresa. Depois do VAI TEC, o negócio chegou a receber uma possibilidade de aporte, mas decidiu recusá-la por entender que aquele ainda não era o momento adequado.
“Quando você conhece bem a sua empresa, fica segura até para recusar dinheiro.”
– Bianca Araújo
Dessa forma, as duas experiências mostram que apoiar um empreendimento não significa apenas oferecer conteúdo. Significa criar tempo, ampliar redes, aproximar oportunidades, fortalecer a tomada de decisão e reconhecer que cada negócio possui um estágio e uma necessidade diferentes.
Fortalecendo o empreendedorismo negro no Brasil
O afroempreendedorismo também movimenta uma reflexão sobre como o dinheiro circula dentro das comunidades negras. O conceito de black money propõe fortalecer iniciativas lideradas por pessoas negras, valorizando seus produtos e serviços e ampliando a permanência dos recursos nesse circuito econômico.
Fortalecer esse movimento depende tanto de apoiar os negócios que já existem quanto de garantir que novas pessoas empreendedoras encontrem acesso à formalização, ao crédito, à formação, às redes e ao mercado.
Esse propósito está presente em iniciativas executadas pelo Instituto Cória, como o Empreende Mulher Alumínio, o VAI TEC, o Perifa Empreendedora, o Impulsiona Bahia, o Semeando Negócios e o Amplitude Perifa.
Os dados consolidados dos programas ajudam a dimensionar esse trabalho. Entre 1.141 pessoas empreendedoras, 838 são mulheres, o equivalente a 73% do total. Desse conjunto, 581 são mulheres negras, que representam 51% de todas as pessoas atendidas. Os registros também incluem 59 mulheres LGBTQIAPN+ e 31 mulheres com deficiência.
Em alguns programas, a presença de mulheres negras é ainda mais expressiva. No Perifa Empreendedora, foram 468 mulheres negras entre 764 participantes. No Impulsiona Bahia, elas eram 25 das 34 pessoas atendidas.
O impacto do Instituto Cória

Esses números mostram que diversidade não aparece apenas como um compromisso institucional. Ela está no perfil de quem participa, nas soluções desenvolvidas e nos territórios alcançados pelos programas.
“Ao longo dos programas desenvolvidos pelo Instituto Cória, é comum encontrar pessoas que começaram a empreender na informalidade, sem acesso a crédito ou redes estratégicas. Depois das formações e mentorias, muitas conseguem estruturar a gestão, ampliar o faturamento, acessar novos mercados e fortalecer seus negócios.”
– Josy Santos, diretora executiva do Instituto Cória
Os programas atuam em contextos distintos, mas partem de um princípio comum: boas ideias não se desenvolvem apenas com esforço individual. Por isso, eles precisam de condições, ferramentas, tempo e conexões para se transformar em negócios sustentáveis.
O Instituto Cória acredita que apoiar o empreendedorismo negro é impulsionar o desenvolvimento do país de forma mais justa. Para isso, atua no fortalecimento de negócios liderados por pessoas de territórios historicamente excluídos do ecossistema empreendedor, com foco no desenvolvimento de competências, no acesso ao mercado e na construção de redes que ampliem as possibilidades de crescimento.
“A pergunta que precisamos fazer não é se pessoas negras sabem empreender. Os dados já responderam isso. A pergunta é se estamos construindo um ecossistema capaz de oferecer as mesmas condições para que esses negócios cresçam. Quando ampliamos o acesso, ampliamos também a inovação, a competitividade e o desenvolvimento de todo o país.”
– Josy Santos, diretora executiva do Instituto Cória
Conheça as iniciativas do Instituto Cória e faça parte dessa transformação.


